Orientador faz balanço de trabalho desenvolvido com alunos Xokleng para resgatar e preservar a cultura dos povos indígenas na região

apresenta鋏es de dan軋

“Nossas pinturas corporais que definiam a linhagem das famílias foram substituídas por documentações pessoais”

Dança, tiro com arco e flecha, artesanato e comida típica. Essas foram apenas algumas das atividades realizadas ao longo do ano com estudantes da Escola Laklãnõ em José Boiteux através da Gerência de Educação da Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Ibirama para garantir o resgate e a preservação da cultura dos indígenas da etnia Xokleng.

Segundo o orientador de cultura, Copacãm Tschucambang, a chegada dos colonos europeus no Vale do Itajaí gerou ataques e perseguições ao povo Xokleng que resistiu a ocupação das terras, mas depois de centenas de mortes, acabou se rendendo. A chamada “pacificação’’, ocorreu no dia 22 de setembro de 1914, com Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, querepresentava o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), mas com o passar do tempo, muitos aspectos de sua cultura acabaram sendo deixados de lado, seja por causa da imposição do ensino da língua portuguesa ou até mesmo o casamento com povos de outras etnias ou não indígenas. “Estas interferências fizeram com que muitos saberes tradicionais fossem deixados de ser praticados e repassados de pai para filho. Poucos mantinham estes ritos, deixando de herança aos seus descendentes.”

Mas o professor destaca que a escola, que no passado contribuiu para a perda da cultura, hoje ajuda a propagar e fortalecer os conhecimentos, e principalmente na reafirmação e valorização étnica através dos saberes tradicionais que ainda são um desafio, inclusive dentro de sala de aula. “Um professor indígena que tem que mostrar para seu aluno os conhecimentos dos não indígenas e os conhecimentos do seu povo”, lembra Tschucambang.

Entre os trabalhos desenvolvidos na escola em 2016 através do Orientador, que desempenha o papel de intermediário, estão os encontros com anciões, que repassam aos alunos, professores e comunidade saberes tradicionais.

Ele conta que um dos temas trabalhados com os estudantes foi a alimentação e seus rituais de preparação. “Quando viviam no mato nossos antepassados, tinham como base uma alimentação toda extraida da natureza, que era composta principalmente da carne de caça de animais e aves silvestres, pinhão, frutas nativas, palmito, coqueiros, mel de abelhas e diversas larvas, mas hoje a alimentação tradicional gradativamente foi quase toda substituída pela alimentação industrializada, por isso num de nossos encontros foram assados milho e carne bovina no espeto da forma que os antepassados preparavam”.

Através do projeto, os alunos também desenvolveram artesanatos e trançados com técnicas tradicionais ensinadas voluntariamente por uma anciã da comunidade. Entre os objetos produzidos estavam pegadores e até arcos. Em outro encontro as atividades desenvolvidas com as crianças e jovens foram o tiro a alvo com arco e flecha, contação de história e até bingo com cartela em palavras Xokleng.

Ao fazer um balanço de todas as atividades realizadas durante o ano, o professor Copacãm Tschucambang ressalta que apesar de todo esforço, muito da cultura acabou sendo perdida ao longo do tempo e o povo abandonou as práticas cotidianas e rituais considerados fundamentais para o modo de vida, educação e formação de um individuo Xokleng. O orientador afirma que para resgatar essa identidade o desafio é ainda maior. “Hoje o uso das nossas pinturas corporais, que definiam a linhagem das famílias foram substituídas por documentações pessoais, mas continuamos trabalhando com as novas gerações, principalmente com a ajuda dos anciãos para que isso não se perca”, comenta.

Ele finaliza dizendo que através das escolas indígenas da Terra Laklãnõ e em parceria com outras instituições, os professores tem buscado trabalhar a conscientização e fortalecimento da cultura. “Estamos preparando os alunos para enfrentar o mundo dos ‘brancos’ e reafirmando a nossa identidade que é fundamental para manter viva as nossas histórias, as práticas dos saberes tradicionais, conhecimentos milenares de todo o nosso povo.”

 

Helena Marquardt

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