A Identidade da Escrita destaca a obra de Manoel Carlos Karam em Rio do Sul

 O escritor Manoel Carlos Karam tem uma casa de leitura e um prêmio literário com seu nome no Paraná, mas ainda é pouco conhecido em Santa Catarina. Para difundir e colocar em evidência a sua obra, a Fundação Cultural e a Biblioteca Pública Municipal de Rio do Sul promovem um bate-papo literário sobre a escrita de Karam, que é nascido na cidade e faria 70 anos em 2017. Em dezembro, completa-se dez anos da morte do escritor.

            O bate-papo marca o lançamento do projeto Identidade da Escrita, que visa destacar e incentivar o público a ler e pesquisar escritores da cidade. E essa primeira edição será realizada dia 11 de dezembro, às 20h, na biblioteca. A mediação será do escritor Carlos Henrique Schroeder, um dos conhecedores e divulgadores da obra de Karam em Santa Catarina.

Para Carlos Schroeder, Karam é dono de uma prosa indefinível e foi um dos escritores brasileiros mais inventivos. “Ler Karam é experimentar uma espécie de teatro interior, onde vozes convulsionadas se sobrepõem, se distanciam e se fundem. É estar numa miscelânea de referências; afinal, somos a soma das nossas referências. E Karam transformou suas referências em algo muito próprio, algo seu, só seu, que de tão seu passa a ser nosso também. Seus livros são difíceis de atrelar a um gênero específico”, afirma.

Carlos Schroeder destaca que Karam é louvado por escritores como Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Marçal Aquino, Ivana Arruda Leite e muitos outros. Também que hoje seus livros são facilmente encontrados, mas que nem sempre foi assim. “Karam chegou a ser o segredo mais bem guardado da literatura brasileira, até encontrar o primeiro grande divulgador de sua obra, o escritor Joca Reiners Terron, que inclusive editou alguns de seus livros”, ressalta.

 

Vida e obra do escritor          

            Manoel Carlos Karam nasceu em Rio do Sul, em 1947. O pai do escritor, conhecido como Titio Karam, hoje dá nome ao Teatro Embaixo da Ponte, no Parque Universitário Unidavi – um local curioso e pitoresco para eventos culturais – era jornalista, agitador cultural e comandava um programa de auditório ao vivo numa emissora de rádio AM. Do pai, Manoel Carlos Karam herdou o humor peculiar e a paixão pela comunicação. Aos 19 anos, deixou a cidade natal para estudar jornalismo em Curitiba. Viveu na capital paranaense até a sua morte, em 1º de dezembro de 2007.

Em vida, Karam publicou Sexta-feira da semana passada (1972), Fontes murmurantes (1985), A cidade sem mar (1989), O impostor no baile de máscaras (1992), Cebola (1996 – vencedor do Prêmio Cruz e Souza de Literatura no ano seguinte), Comendo bolacha maria no dia de são nunca (1999), Pescoço ladeado por parafusos (2001), Encrenca (2002) e Sujeito oculto (2004). E a maioria desses livros foi reeditada recentemente pela Kafka edições e pela Arte & Letra, duas das principais editoras independentes paranaenses. Mas também saíram os póstumos Jornal da guerra contra os taedos (2008), Algum tempo depois (2014),Meia dúzia de criaturas gritando no palco (2014), Godot é uma árvore (2016) e Um milhão de velas apagadas (2016).

Karam já foi tema da Feira do Livro de Rio do Sul e algumas de suas obras estão disponíveis na Biblioteca Pública Municipal da cidade. Essa edição do projeto Identidade da Escrita recebe o apoio da Livraria Riocentro.

 

Por onde começar em Karam?

Carlos Schroder sugere o livro Comendo bolacha maria no dia de São Nunca como uma boa entrada para o universo literário de Karam, para entender seu jogo. “São breves recortes que não cabem nos rótulos mais conhecidos, como conto, crônica ou mesmo o aforismo e a dramaturgia, divididos em nove partes completamente díspares. Esses estalos hoje encontram ecos em livros de autores como Lydia Davis e Gonçalo M. Tavares, pela incrível precisão e brevidade, mas com um humor cáustico, que beira a exasperação, grande marca do autor. É um livro para ler várias vezes, do início ao fim, ou de trás para frente, não importa”, afirma Carlos Schroeder.

 Karam - Foto Glória Flügel

Karam no teatro

O projeto Mesmas coisas foi criado a partir de um livro inédito de Karam e das provocações da atriz e iluminadora Nadja Naira e da atriz e cantora Michelle Pucci sobre a obra do escritor. É uma peça-performance desenvolvida por um grupo de artistas de Curitiba que resgata a proposta estética do autor, levando ao palco enredos não lineares, fragmentados, na forma de relacionar a obra teatral com o processo criativo de Karam.

Tiago Amado 

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