“É a melhor série produzida no Brasil nos últimos anos”, diz autor sobre “Plano Alto”

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Retratando – e, inconscientemente (?), denunciando – os tumultuados bastidores da política nacional, “Plano Alto” marcou o ingresso da Record num gênero até então inexplorado pela emissora.

Para Marcílio Moraes, os baixos índices de audiência registrados pela série são secundários quando comparados ao prestígio gerado pela mesma. Em entrevista exclusiva ao RD1, o autor faz um balanço sobre “Plano Alto”, exalta todos os envolvidos na produção, e afirma que a série poderia ter até mais duas temporadas.

Sobre as possíveis comparações entre seus personagens e os políticos da vida real, Marcílio é enfático:“Meus personagens são melhores que a realidade”.

Confira:

RD1 – “Plano Alto” vem obtendo médias entre 3 e 5 pontos. Como você avalia tais números? Eles, de alguma forma, te desanimam?

Marcílio Moraes – Os números não me desanimam. Claro que eu gostaria que a série tivesse um grande público, mas desde o início tinha consciência de que não é um trabalho com características populares. Pelo menos não no sentido que “popular” adquiriu atualmente na TV brasileira, de popularesco.  Alertei a direção da Record e conversei com o Ivan Zettel [diretor] sobre isso. Tínhamos que apostar no prestígio artístico que a série traria. E foi o que aconteceu. “Plano Alto” tem tido uma ótima avaliação, de forma unânime. Uma emissora de TV não vive só de audiência. Vive também de prestígio. Como autor, trabalho pelo prestígio.

RD1 – Você acha que alguns dos políticos atuais podem ter “vestido a carapuça” dos personagens da série? Alguém da classe chegou a comentar isso com você?

Marcílio Moraes – Eu acredito que muitos políticos podem ter “vestido a carapuça”. Nenhum personagem de “Plano Alto” foi construído a partir de alguém existente, mas nenhum deles destoa da realidade que se vê por aí. Então a identificação é possível, mas, se aconteceu, a pessoa não acusou o golpe. De certa forma, meus personagens são melhores que a realidade. São mais inteligentes, mais articulados, mais cultos e alguns, até mesmo, possuem princípios mais bem estabelecidos. Alguns políticos de “Plano Alto” citam Shakespeare, conhecem Arthur Miller, discorrem sobre teorias jurídicas e políticas, etc.  Ou seja, se a carapuça fosse vestida, o figurão que a trajasse não ficaria mal na fita.

RD1 – Vendo “Plano Alto” no ar, você consegue eleger quais atores ou elementos te surpreenderam positivamente no ar? E, por outro lado, algo ficou aquém do esperado por você?

Marcílio Moraes – No ar, a série só me trouxe gratas surpresas. Eu sabia que estava tudo muito bom, porque o diretor é excelente e tivemos a sorte de reunir um elenco de primeira. Tudo funcionou muito bem. É um produto de excelência, de alto desempenho artístico. Eu arriscaria dizer que é a melhor série produzida no Brasil nos últimos anos.  Aquém ficaram, pelo menos até agora, alguns grandes órgãos da imprensa que não dedicaram ao trabalho a análise em profundidade que ele merece. Preferem falar, ad nauseam, de séries estrangeiras.

RD1 – Você escreveu sobre um dos temas mais delicados do mundo. Ao longo do processo, precisou “deixar de lado” algumas tramas? Sofreu algum tipo de autocensura ou recomendação da Record para evitar alguma abordagem?

Marcílio Moraes – Tudo aquilo, em termos de temática e de tramas que, de início, eu planejei, levei a cabo. Não me impus autocensura nem ouvi recomendações sobre abordagem.  A linha que segui, evitando abordagens ideológicas, procurando na verdade retratar a alta política, embora às vezes não pareça, facilitou a realização sem qualquer tipo de ruído ou mal-estar.

RD1 – Você mesmo disse que “Plano Alto” ‘exige um certo esforço intelectual do espectador’. Acha que isso prejudicou a obra? E, aproveitando este gancho, estaria o público brasileiro “desinteressado” por produtos sofisticados?

Marcílio Moraes – A meu ver, “Plano Alto” exige mesmo algum esforço intelectual do espectador porque a série não trabalha com os chavões tão característicos da teledramaturgia brasileira atual. É uma obra construída com várias vozes, polifônica. Não tem mocinhos nem bandidos. Não há nem mesmo um protagonista, rigorosamente falando. Então o espectador tem que estar atento para perceber as diversas facetas que constituem a série.  Do ponto de vista rasteiro da mera audiência, se poderá dizer que esta perspectiva prejudicou o trabalho. Mas eu já disse que o objetivo foi a excelência artística, o prestígio. A audiência é secundária.

RD1 – A Record já te encomendou uma nova novela. Você pode nos adiantar algo sobre a sinopse? Ela já possui algum “ponto de partida”?

Marcílio Moraes – Tenho a intenção de desenvolver uma novela para o final do ano que vem. Estou matutando em algumas ideias, mas é cedo para falar sobre elas. Não existe sinopse ainda, nem mesmo um ponto de partida definido.

RD1 – Há alguma chance de “Plano Alto” ganhar uma segunda temporada no ano que vem?

Marcílio Moraes – Seria uma maravilha se pudéssemos fazer uma segunda temporada. Deixei todos os ganchos necessários na primeira. Havendo sinal verde, amanhã mesmo começo.  Mas é difícil, por uma série de razões, inclusive as mais práticas, como disponibilidade do elenco, da técnica, etc. Mas não tenha dúvidas que vou insistir nisso. Pelo seu grau de sofisticação, a série merece uma segunda e mesmo uma terceira temporadas.

RD1

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